
Uma opção costumeiramente barata em vários países, o cachorro-quente tem muitas versões. E novas aparecem a cada dia. O trivial pão sovado e salsicha pode ganhar tantos acompanhamentos quanto couberem, ao gosto do freguês. Prático (e gostoso) para aqueles dias em que não queremos ter muito trabalho na cozinha, ou mesmo na rua, nos dias de maior pressa, onde é servido em barraquinhas, trailers, carrinhos ou até em lanchonetes e grandes restaurantes. Justamente por não ser algo tão bom para a saúde como seria de se supor à primeira vista, pode, sim, ganhar versões mais saudáveis com vegetais e salsichas mais light, de carnes as mais diversas (como a bovina, de frango, chester e até as versões para os vegetarianos), facilmente encontradas no comércio de hoje.
Para um prato tão difundido, é normal que surjam várias versões para sua origem. A mais conhecida, como não poderia deixar de ser, é tão alemã quanto a salsicha. Um açougueiro de Frankfurt (daí o tipo mais conhecido de salsicha ser conhecido como frankfurter), em 1852, rebatizou as salsichas por lembrarem o seu cãozinho basset. Pouco provável, mas tudo bem.

A segunda é que outro germânico, um tal Charles Feltman, emigrou para os Estados Unidos e criou o sanduíche com salsicha, mostarda e chucrute (repolho fermentado), que vendia num carrinho em Coney Island, no Brooklyn (Nova York), pois antes vendia tortas e estava cansado de tentar competir com os restaurantes, que as serviam com mais comodidade. Mas a mais aceita também é dos Estados Unidos: Anton Feuchtwanger, também emigrante alemão, vendia salsichas durante a Feira de Compras da Louisiana, em Saint Louis, em 1904. Emprestava aos visitantes luvas brancas, para que pudessem comer as salsichas quentes. Como a maioria das luvas não era devolvida, teve uma ideia: pediu ao cunhado, um padeiro, que improvisasse um pão que contivesse a salsicha. Será? Independentemente da veracidade da “invenção”, o bávaro vendeu cachorros-quentes a torto e a direito.
Hot dog nos estádios
Histórias desencontradas, mas nem tanto: que a salsicha foi criada e levada para os “States” pelos alemães, é fato, além de ter começado a virar mania a partir de Nova York. E foram os norte-americanos que apelidaram o sanduíche de hot dog (cachorro-quente), pois apelidavam as salsichas de dachsund, o cãozinho de origem germânica comprido e orelhudo.
Houve uma forte ligação com eventos esportivos, como os de futebol americano e beisebol. Em 1906, um certo Harry Stevens tinha a licença para vender alimentos no estádio de beisebol dos New York Giants, o Polo Grounds (foto). Num dia frio, sorvete e refrigerante não estavam agradando os frequentadores. Correndo, Harry mandou seus funcionários comprarem todas as salsichas e pães dos arredores. E a galera foi ao delírio, daquela vez não só por causa dos lançamentos e tacadas dos Giants. O comentarista esportivo e cartunista Tad Dorgan, do New York Journal, assistia a tudo da cabine de imprensa do estádio e reparou na movimentação da plateia ávida por salsichas quentinhas no pão. Brincou com o termo dachsund e desenhou o cartum da edição do dia seguinte: o cãozinho marrom entre duas fatias de pão e com mostarda nas costas, com os dizeres “Venha comer seu cachorro quente!”. O nome pegou. O sanduba também: dos 20 bilhões de cachorros-quentes que os norte-americanos comem todos os anos, 26 milhões são vendidos só nos estádios no campeonato nacional de beisebol, para se ter uma noção.

Há como comprovar as histórias? Não. A briga entre alemães e estadunidenses continua até hoje para definirem a verdadeira origem do cachorro-quente. Enquanto eles brigam, nós comemos.
E por aqui?
No Brasil, a “moda” mais do que pegou, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando muitas manias dos Estados Unidos foram adotadas por aqui. Em praticamente toda cidade brasileira o sanduíche está presente, em infinitas versões. Até chefs e restauranteurs conhecidos aderiram e inventam (e inflacionam) as suas.
Os paulistas colocam purê de batatas no seu “dogão”. Os cariocas inovaram o “podrão” (como é irreverentemente conhecido o cachorro-quente comprado em trailers e carrinhos) com recheios inusitados, como o ovo de codorna. Os paraibanos gostam dele com carne moída e alface picada sobre a salsicha (uma versão do hot dog com chilli norte-americano). Os paranaenses o adaptaram à chapa de
prensa (com um pão gigantesco). Os catarinenses, fiéis à origem germânica, põem chucrute, mas acrescentam molho de tomate. Há quem asse as salsichas na brasa ou no forno, passe-as na chapa ou as cozinhe em água.
Nacionalmente, o tradicional pão com salsicha também é servido com batata-palha, maionese, frango desfiado, bacon tostado e picado, picles, ervilha, milho verde, requeijão, cebola, pimentão, cenoura ou beterraba raladas, queijos diversos, linguiça calabresa e o que mais a imaginação mandar (e o estômago e o fígado aguentarem). Há o pão próprio para o sanduíche, mas também é usado o integral, o com gergelim, o francês, a ciabatta e vários outros. Vale muito lembrar: há as versões mais light de cachorro-quente disponíveis no comércio e que também podem ser feitas em casa, por gente mais de olho na saúde. Também é bom prestar atenção quanto ao uso exagerado de molhos gordurosos, queijos em demasia e os popularíssimos ketchup e mostarda.
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