domingo, 27 de junho de 2010

Dispositivo de plástico ajuda obesos a perder peso em São Paulo


Obesos em São Paulo estão passando por uma experiência inédita. A repórter Flávia Cintra conta detalhes dessa experiência inédita, que fez gente perder até 50 quilos.

Pessoas muito obesas que aguardam a cirurgia de redução de estômago em São Paulo tiveram parte do seu intestino revestida internamente por um plástico. Os resultados são surpreendentes.

O dentista Paulo de Tarso é um homem feliz com sua imagem: “Gosto de olhar no espelho hoje. Antigamente eu olhava e ficava abaixando o olho porque eu me sentia muito gordo”, comenta.

O corpo de Paulo de Tarso é resultado de uma experiência inédita no Brasil: um dispositivo de plástico foi colocado na porção inicial do seu intestino, o duodeno. É por dentro deste tubo de 62 centímetros que o alimento ingerido passa. A comida vai mais lentamente do estômago para o intestino.

A sensação é de saciedade, de estômago cheio. Dentro do tubo, o alimento não recebe as secreções liberadas pelo pâncreas e pelo fígado, que só atingem a comida depois que ela percorreu todo o tubo plástico. A digestão e a absorção dos alimentos não é completa. O resultado é a perda de peso.

“Nós tivemos êxito no controle da perda de peso em 100% dos pacientes”, garante o médico Eduardo Hourneaux de Moura, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Ele coordena no Brasil os trabalhos com o dispositivo, testado também nos Estados Unidos, no Chile e na Holanda.

De plástico fino e maleável, o tubo ficou 12 meses no interior de 78 pacientes muito obesos, que tinham indicação de cirurgia de redução de estômago.

“Emagreci uns 28 quilos”, calcula o dentista Paulo de Tarso. Sua cintura está 42 centímetros mais fina. A pressão arterial, que chegava a 20, hoje está normal: em torno de 12. E o índice de glicemia baixou de 378 para 80, índice também normal.

Eu tinha 134 centímetros de abdome. Hoje estou com 92. A pressão arterial passou de 18, 19, 20, para 12 por 7. Minha glicemia era de 378. Hoje estou com média de 80, 70”, compara Paulo de Tarso.

Paulo tinha diabetes tipo 2, comum em obesos graves.“Vinte por cento dos pacientes ficam efetivamente sem tomar nenhum medicamento para diabetes”, aponta o médico Eduardo Hourneaux de Moura.

Esse foi um dos resultados mais importantes do trabalho. Números divulgados esta semana revelam: o excesso de peso já atinge 46% dos brasileiros. A situação é mais grave para 14% da nossa população, que já é considerada obesa. São pessoas ainda longe da obesidade mórbida, mas incomodadas com os quilos extras, que já estão sendo estudados de uma nova perspectiva: microscópica.

Cientistas observaram que no intestino de obesos um tipo de bactéria é dominante. Nos magros, essa mesma bactéria aparece em número menor. Dieta e genética seriam as responsáveis por essa diferença.

“Este grupo de bactérias, quando presente, parece determinar uma maior capacidade de esse indivíduo ganhar peso”, aponta a pesquisadora Regina Domingues, do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Enquanto esse futuro não chega, o dispositivo plástico poderá estar acessível já no próximo ano. Quem usou experimentalmente, comemora. “Carregar 200 e tantos quilos não era fácil. Chegou uma hora que o coração sentiu”, diz o consultor financeiro José Correia Garcia Junior.

José sofreu um infarto. Dois anos depois, se submeteu à pesquisa do HC. Emagreceu mais de 50 quilos e se prepara para a cirurgia de redução de estômago. “O José de hoje é uma pessoa bem mais consciente. É uma pessoa que hoje cuida da saúde”, afirma o consultor financeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário