A pergunta do título é ótima. Mas não é minha, e sim da colunista de The New York Times, Maureen Dowd. No artigo, ela discute essa “terrível fronteira” entre ser uma mulher desimpedida, disponível, ousada, independente… e alguém, bem, alguém que ficou para titia, como falamos no Brasil. Uma mulher que não conquistou um homem a ponto de persuadi-lo a casar com ela.
Então, até os 40 anos, a mulher seria solteira. Mas, depois disso, ela seria “não casada”. E isso, segundo Maureen (e segundo a torcida do Flamengo), equivaleria a dizer que suas chances de acasalamento acabaram… Mas, pior do que isso, significaria que ficar sozinha não foi escolha dela. Simplesmente nenhum homem a quis – o bastante.
Cruel? Sim, parece cruel, se imaginarmos que a solteirice dos homens atravessa idades e décadas mais como uma opção do que falta de opção. (é verdade que, hoje, nem tanto… o quarentão ou cinquentão solteiro é visto por muitas mulheres com certa suspeita de ser um cara problemático ou homossexual… e isso também é preconceituoso e cruel)
Há, como exceção, as cinquentonas solteiras e sexy no mundo do entretenimento e essas são menos vulneráveis a despertar pena da sociedade. Simplesmente resolveram não casar oficialmente e continuar assim para sempre.
O artigo no The New York Times diz respeito à juíza Elena Kagan, nome proposto por Obama para integrar a Suprema Corte americana. E também aos rumores de que ela seria gay, por jamais ter casado, embora já tenha 50 anos. E os que saem em sua defesa, ou em defesa de sua heterossexualidade, preferem espalhar que ela não teve sucesso nos relacionamentos com homens. Não poderiam apenas dizer que Elena é uma solteira feliz e convicta? Ou seja, mulher não casada seria solitária, jamais uma mulher só.
Em vez de Elena Kagan e todos os americanos celebrarem o fato de ela poder vir a ser – caso seu nome seja confirmado pelo Senado – a quarta mulher a servir na Suprema Corte americana, fica todo mundo se perguntando por que ela é solteira até hoje. É mesmo muita perda de tempo.
Antes de nós, aqui no 7×7, perdermos tempo com isso também, explico por que resolvi escrever sobre o tema.
Aos 55 anos, sou solteira até hoje. E por absoluta falta de desejo de casar oficialmente. Estamos em pleno “maio-mês-das-noivas”. Um de nossos posts no blog chegou a comentar que toda mulher sonha entrar numa igreja (ou num cartório) vestida de branco – com direito a véu e aliança e buquê.
Nunca tive sonho parecido. Jamais desejei casar. Não podia me ver protagonista naquela situação em que o pai entrega a filha a um marido. Aquilo me parecia um constrangimento – estava mais para pesadelo que sonho. Era uma época em que as mulheres ainda tinham a mania (estimulada pela sociedade) de mudar o sobrenome, adotando o do homem. Ficava pasma.
Na verdade, casei sim… em festa de São João na escola (foto ao lado), e achei divertido – mas porque não havia compromisso. Era um “casamento na roça”. Eu continuaria solteira. Tinha oito anos de idade. (ahhhh…antes que eu seja acusada: não fui eu que “decapitei” o noivo! foi o fotógrafo – vai ver era meu pai)
Respeito imensamente mulheres e homens que valorizam o casamento como instituição oficial, que se emocionam ao assinar contratos de amor para toda a vida, ou que se unem pela fé.
Mas, nem todos querem o mesmo da vida.
Nenhum homem conseguiria me levar ao altar ou me convencer a assinar um documento envolvendo coisas de amor – e eu me sentiria muito inadequada num vestido de noiva. Eu preferia a fantasia de havaiana no carnaval.
“Casei” (morei na mesma casa) por muito amor com dois homens que me deram filhos maravilhosos. Tenho um namorado, há 19 anos – é namoro mesmo, porque vivemos em casas separadas. Amigos que querem me provocar me perguntam “quando vou ficar noiva”. Em todos os formulários que preciso preencher, escrevo “solteira”. E sinto orgulho, por ter resistido a pressões familiares e sociais. É bom viver de acordo com nossos valores e escolhas.
A julgar por minha idade e pelas convenções, sou portanto hoje mais do que uma simples solteira. Mas, claro, não me sinto solteirona nem “titia”. Sou uma mulher rodeada de homens bacanas – os ex, os filhos, o namorado (agora quase eterno) e alguns amigos queridos.
Portanto, mulheres, se vocês forem solteiras por convicção e desejo, celebrem seu estado civil! Mas nunca deixem de se apaixonar.
ruth de aquino
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