
Ponto de Vista
Ademar Romano*
"O mundo seria um caos se todas as pessoas decidissem falar a verdade. Somos programados para mentir desde o princípio da humanidade. Os bons mentirosos são facilmente reconhecidos, adquirem melhor posição social e bons salários". Palavras do filósofo americano David Levingstone Smith, professor do Instituto de Ciência Cognitiva e Psicologia Evolutiva da Universidade de New England, nos Estados Unidos.
Por mais que neguemos os fundamentos do professor Smith, que contrariam o senso comum, o fato é que a mentira está em todos os lugares. O difícil é admitir que todos os humanos mentem, porque contraria o julgamento moral. Há os indivíduos que mentem para obter vantagem,"esta classificada como uma das piores. Outros para se proteger. Independentemente da forma, o certo é que os mentirosos profissionais levam sempre vantagem, porque conseguem ludibriar por bastante tempo. Pior que isso, a mentira é o sustentáculo das relações sociais. Na família, por exemplo, é comum os pais afirmarem que ensinam os filhos a não mentir. Será? E quando dizem às crianças que Papai-Noel existe, que mora no Pólo Norte e que os presentes são distribuídos por Ele, à zero hora! Que não é correto falar das mamárias caídas da vovó...
O fato é que os mentirosos mais hábeis são inteligentes, mas tão inteligentes, que detectam com extrema rapidez a vulnerabilidade de seus semelhantes. É o caso de grande número de políticos que captam com aguda precisão as aspirações dos eleitores menos esclarecidos. Mentem para se dar bem ou porque creem na própria mentira. A História Universal está repleta deles. Hitler, Napoleão, César, Bush, por exemplo. O primeiro mentira para dominar o mundo e porque desejava criar na Alemanha uma raça de sangue azul. O segundo mentiu quando liderou a Revolução Francesa com o lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". Não cumpriu e o povo francês mergulhou na decadência física e moral. César, porque fabulou uma nova Roma edificada sobre as cinzas dos cristãos. Bush, porque declarou ao mundo que havia no Iraque poderosas armas de destruição em massa. Todos eles mentiram e tinham consciência disso. E acreditavam na própria mentira. Daí o poder de persuasão deles tornar-se maior.
As mentiras das pessoas comuns não são diferentes. É claro que as mentiras das pessoas notáveis têm graves consequências, apesar de que as diferenças, na média, sejam mínimas. As pessoas comuns também querem crer em suas mentiras.
Robert Feldman - psicólogo da Universidade de Massachusetts - concluiu em sua pesquisa que "as pessoas, a cada dez minutos de conversa, contam três mentiras." Questionado sobre quem mente mais: na política ou no casamento, David Smith respondeu que "é na política, porque os interesses não são comuns, diferentemente do casal que mente menos entre si do que aqueles que tentam iludir para levar vantagem."
Ainda bem que, num regime democrático, temos uma imprensa justa, livre, crítica e soberana para nos defender dos mentirosos profissionais. O jornal, por exemplo, é forte e indispensável aliado do dia-a-dia. Ele ajuda a decidir, produzir, possibilitando aos cidadãos movimentar-se dentro da sociedade com mais segurança e em situação vantajosa. Bem informados e atualizados, esses cidadãos, que leem jornal com regularidade, impregnam de lucidez as suas decisões. Afinal, jornal e democracia combinam muito bem.
Ademar Romano é professor federal e escritor, com experiência nos três graus de ensino
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