Concurso gastronômico leva em conta a tradição das comitivas
Uma das atividades mais esperadas da Festa do Peão de Barretos, a “Queima do Alho”, reuniu tropeiros, cozinheiros, violeiros, apreciadores da cultura caipira e muitos curiosos no Parque do Peão, na manhã deste sábado (28).
“Queima do Alho é uma gíria do mundo caipira. Quando estava na hora do almoço, só uma pessoa cozinhava então todos perguntavam ‘quem vai queimar o alho?’”, explica o coordenador da competição, João Paulo Martins.
Dezoito comitivas disputaram o título de melhor comida de tropeiro. Nesse concurso gastronômico não há variedade de pratos. Todos os cozinheiros preparam arroz de carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne seca (alguns fazem no pilão), carne assada e mandioca. O que faz com que cerca de 3 mil pessoas disputem um prato durante o evento é o sabor dessa comida, que é preparada no chão, em fogão de tijolo.
“Esse arroz é muito saboroso, nunca comi nada igual”, disse a assistente social Maria Izabel Prado Nogueira dos Santos, de Ribeirão Preto, que visita a Festa do Peão pela primeira vez.
Mas para os jurados do concurso, a comida é o que menos importa. “A gastronomia é o último item a ser julgado. Nossa preocupação é com a autenticidade. Se a tralha (utensílios de cozinha) é do estradão mesmo, se o peão sabe conservar a tradição”, diz o coordenador Dorival Gonçalves.
Comitivas
O transporte de bois do tropeiro ainda é muito utilizado nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Em São Paulo, a atividade quase não existe mais, a não ser em trechos curtos entre fazendas.
Luis Carlos Gonçalves Anunciação, de 44 anos, hoje é pecuarista, mas trabalhou por muitos anos transportando boiada no Mato Grosso e ainda hoje vai com os peões tocar o gado no Pantanal. Participante do concurso há quatro anos, ele relembra os tempos em que cozinhava para a comitiva. “Comecei a viajar com 10 anos. Como era ruim para trabalhar na ‘vida dura’, só sobrava a cozinha para mim”, conta.
Mas muitos participantes nunca foram tropeiros. São pessoas que trabalham na cidade, mas que vivem e preservam a cultura caipira nos fins de semana ou em eventos como a Queima do Alho. É o caso do dentista José Carvalho Júnior, de Campinas. Ele e outros amigos formaram a comitiva Rota dos Tropeiros para manter a tradição de seus antepassados. “Meus avós faziam essa comida no estradão”, conta.
Dona Dalva Aparecida Utuari também nunca tocou boiada, mas presenciou todas as edições da Queima do Alho e, por isso, ganhou direito de ser a única mulher a participar do concurso. “Comecei ainda menina e nunca ‘falhei’ um ano”, diz a senhora.
A Queima de Alho de Barretos, foi o primeiro e é o mais tradicional concurso gastronômico de comida de tropeiros do Brasil, foi patenteado e deverá se tornar Patrimônio Histórico em 2010.
Todas as comitivas vêm para Barretos com as despesas pagas e o vencedor recebe R$ 1,5 mil, um prêmio bem modesto diante dos US$ 100 mil que estão sendo disputados neste fim de semana na arena pelos peões da Copa do Mundo de Montaria em Touro. “O que vale é o certificado. Ele é um passaporte e um motivo de orgulho para a comitiva vencedora”, diz Martins.
Berrante
O concurso foi aberto com um grande toque de berrante. Outra cultura caipira destacada em Barretos, em mais uma competição na manhã deste sábado, com a reunião de 25 tocadores de todo Brasil. Além de valorizar o mais tradicional instrumento do peão, o concurso serve de estímulo para novos tocadores, sejam eles adultos ou crianças.
O campeão Neguinho Berranteiro veio de Três Lagoas (MS) e começou a tocar aos 10 anos. Em 2007, ele havia conseguido o segundo lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário