segunda-feira, 13 de abril de 2009

Perdoar é preciso



Nesta Páscoa, a Folha Universal mostra que o ato de perdoar, além de paz interior, só traz benefícios: reduz dores e evita insônias e gastrite. Quem é que nunca teve que enfrentar a difícil situação de ter que decidir se perdoa ou não alguém que o feriu, magoou ou o decepcionou de alguma forma? A tarefa é árdua, difícil. Mas o ato de perdoar traz muito mais do que bem-estar e paz interior. Segundo a ciência, o nobre gesto de se livrar do rancor e perdoar o próximo e a si mesmo traz benefícios para a saúde, como melhorar os batimentos cardíacos e a tensão muscular, além de evitar náuseas, perda de apetite, tontura e dores de cabeça, no peito e no estômago. Na semana da Páscoa – um bom momento para reflexão – é importante lembrar que o perdão só é válido quando genuíno e que, por mais que haja boa vontade, para algumas pessoas, há coisas simplesmente imperdoáveis. “A raiva crônica, que é o rancor, está sempre acompanhada de ansiedade crônica e pode fazer com que a pessoa libere mais cortisol, o hormônio do estresse, repetidamente, o que pode prejudicar o funcionamento do sistema imunológico e, depois de meses ou anos, provocar mais infecções, alergias, além de, por outros mecanismos, gastrites crônicas, sintomas depressivos leves e insônia”, acrescenta Geraldo Possendoro, psiquiatra e professor de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Uniesp). Em 1997, o comerciante paulista Massataka Ota, hoje com 52 anos, teve o filho Ives Ota, de 8 anos, assassinado com dois tiros no rosto, após reconhecer um dos rapazes que o haviam sequestrado. Depois de 1 ano dormindo apenas sob efeito de bebidas alcoólicas e nutrindo raiva e desejo de vingança, ele conseguiu perdoar. “Quando assisti a um programa de televisão onde um assassino era colocado na frente de um dos familiares da vítima, achei que tinha a oportunidade de perdoar, apesar de ainda não me conformar com o assassinato de meu filho. Antes de ir ao presídio, entrei no quarto do Ives, acendi uma vela e fiquei ajoelhado durante 1 hora e meia, fazendo uma oração de perdão. Já lá, ao sentir a presença do rapaz no corredor, pedi força e sabedoria, e a tremedeira que sentia passou”, lembra Ota. Ao ficar diante de um dos três assassinos do filho, Ota disse: “Salvar um amigo é muito fácil. Difícil é salvar um inimigo, mas estou aqui para te salvar. Desejo que sua filha cresça e te dê vários netos, o que meu filho não poderá dar para mim. Foi a melhor decisão de minha vida. Quando saí do presídio, senti uma paz profunda. Naquela noite, consegui dormir sem precisar me dopar com bebidas. Agora, se não tivesse perdoado, poderia estar com câncer ou ter me separado de minha esposa”, afirma ele, que fundou o Instituto Ives Ota, que apoia vítimas da violência, e agora luta para instituir o Dia Nacional do Perdão, que pretende que seja em 30 de agosto, dia da morte do filho. “Esse será um dia para as pessoas refletirem e perdoarem um amigo ou um vizinho com o qual tenham brigado, o que, certamente, ajudará a diminuir a violência. Imagine quantas melhoras não terá o ser humano que conseguir perdoar a mãe, o irmão ou o pai. Eu consegui perdoar o imperdoável”, garante.Perdoar a mãe foi o que conseguiu a bióloga Rose Mary Nogueira dos Santos David, de 52 anos, que se sentia desprezada por ela desde criança e, por isso, tornou-se uma adolescente rebelde e muito nervosa. “Cheguei a desejar a morte da minha mãe. A mágoa era um tormento. Eu não me sentia amada, ela dizia que eu não prestava para nada”, comenta. Rose saiu de casa aos 21 anos e só aos 40 conseguiu perdoar a mãe. “Ela disse que me perdoava, foi um momento difícil, mas meu coração ficou leve depois do perdão. A mágoa parece uma doença. Quando consegui liberar o perdão me senti como um passarinho”, acrescenta. Não é todo mundo, porém, que está apto a perdoar, segundo José Atílio Bombana, psicanalista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Para quem tem capacidade, perdoar faz bem. Só que nem todos conseguem fazê-lo, honesta e genuinamente. Às vezes, a pessoa se propõe ao perdão, mas não tem condições internas de perdoar. No caso conjugal, se quem foi traído consegue compreender que o vínculo estava deteriorado e que isso levou o outro a trair, poderá perdoar. Porém, alguém que acha que perdoou, mas não o fez de verdade, pode começar a cometer pequenas vinganças e ficar ressentido sem se dar conta, o que não faz bem para ninguém.” Carla S.S. do Amaral, de 34 anos, não só perdoou o marido, Evandro, como cuidou do filho que nasceu do caso de traição. “Um dia antes de completarmos 1 ano de casados, ele resolveu me contar algo que o incomodava muito. No momento, achei que ele estivesse com outra mulher e já comecei a chorar. Aí ele me disse que, 1 mês antes de nos casarmos, havia sido apresentado a uma garota, com quem saiu e que a havia engravidado. Toda vez que ele me dizia que faria um serviço com um colega, na verdade, ia visitar o (filho) Jean, de 2 meses no hospital. Até que não aguentou, me contou tudo e disse que se eu não quisesse continuar com ele, entenderia”, lembra Carla, que não o deixou e acabou levando o garoto, hoje com 9 anos, para casa. Há quem defenda até que o perdão pode ser aprendido. Pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, descobriram ser possível aprender a perdoar por meio de treinamento que dura 6 semanas, com sessões de 90 minutos de palestras, baseadas em ensinamentos como os nove passos descritos ao longo desta matéria. O estudo foi realizado com 259 pessoas, com idade média de 40 anos, das quais 70% tiveram redução nos sentimentos de dor, 13% no ódio que sentiam e 27% nos sintomas físicos, caso de dores nas costas. Entre os entrevistados, 34% relataram aumento da vontade de perdoar as pessoas que os feriram.

Por Andrea Dip e Guilherme Bryan redacao@folhauniversal.com.br

Colaborou Mônica Ferreira

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